Sempre quando vejo algo tão aguardado entre os fãs chegar ao final vou me recordando como foram os finais de séries e franquias de filmes no passado e quais foram as impressões das épocas. “Star Wars Episódio III”, “Friends”, “Lost”… nada teve tanta teoria quanto o final de “Lost”. Lembro-me que uma das teorias que rolavam na internet era de que todos os acontecimentos eram na verdade o sonho de um cachorro. Aquilo, de fato, iria ser uma trolagem tremenda dos roteiristas e criadores da série. E é assim que me sinto após os 5 “filmes” dessa “saga” cinematográfica: trolado.

 

A princípio, busquei assistir Crepúsculo pela legião de fãs que foram levados até o cinema após uma série de livros bem sucedida e muito comentada. Tudo que envolvia o nome “Crepúsculo” fez barulho e conquistou de fato muita gente. Quanto a qualidade e veracidade de seus personagens a gente pode deixar de segundo plano, pois era um filme comercial que buscava atingir os adolescentes com o plot de triângulo amoroso entre uma mulher e dois homens. Se não houvesse um aprofundamento sobre a origem desses personagens, e mantivessem eles como meros humanos, seria mais um romance e ponto final, mas não, a autora dos livros, Stephenie Meyer, resolveu mexer em um campo onde ela visivelmente não conhece, e se conhece resolveu desrespeitar.

 

Não se muda uma mitologia, principalmente quando tal mitologia possui fãs, conhecedores e se faz muito bem construída há séculos. Saci Perere nunca terá duas pernas, assim como um vampiro nunca brilhará à luz do sol. Como já é de conhecimento de todos, o romance em vogue possui um triângulo amoroso entre um vampiro que foge completamente dos padrões conhecidos, uma colegial e seu melhor amigo, que por coincidência ou não, é um lobisomem.

 

Como falei, cheguei até aqui por curiosidade e  através dela venho ao último filme da série, e assim como toda a história nela envolvida é uma grande trolagem. Como um amigo (o autor da crítica aqui do site que muito provavelmente irá elogiar o filme) me falou certa vez que “Crepúsculo” só faz sentido quando se conhece os livros e os filmes são feitos para quem já os leu. Respeito todas as formas de pensamento sobre uma obra, mas não concordo com isso. Quando se adapta uma obra já existente para uma outra mídia não se pode concluir que tal público venha conhecer o original. Nenhum dos filmes de heróis dessa nova era, que utilizam como base os quadrinhos, foram feitos pensando que o público alvo do cinema seriam unicamente os leitores. Eles buscaram um novo público, uma nova geração para conhecer determinada história. Concordo que alguns pontos são feitos apenas para os conhecedores, mas isso não influencia toda uma narrativa. Crepúsculo pode ter uma estrutura boa para livros, mas uma para adaptação cinematográfica faltou muito. MUITO!

 

A primeira parte da história de Amanhecer se resume no seguinte: Bela e Edward se casam, vão para a lua de mel no Brasil, dançam um samba e ela fica grávida. É gerado um suspense e inquietação nas famílias e ela se transforma em vampira para conseguir ter a criança. Fim. O filme é isso. Não há um arco de história suficiente para ser atrativo e nem uma introdução, desenvolvimento e conclusão. Aí que está, vamos para a parte 2 que muito provavelmente esperava-se resolver os problemas de narrativa da primeira parte. Mas não. O filme é tão cru de história quanto o primeiro. Desnecessário.

 

Assim como o plot do primeiro, os acontecimentos se resumem a fatos que não são suficientes para ser um filme de 115 minutos. Quando se analisa a franquia por inteira, ok, até podemos dizer que existe um arco dramático, mas analisando-o individualmente é um episódio de uma série muito mal feito.

 

Durante a projeção para os jornalistas, que foi aberta ao público também, me surpreendeu ver que até as “crepusculétes” (desculpe se esse termo é pejorativo, não é a intensão, mas quero me dizer aos fãs que tratam a série como uma religião) tiveram reações de negação à alguns caminhos que a história foi conduzida. Fazia muito tempo que não via pessoas rindo do filme mas não por ele querer extrair uma reação de humor do espectador, mas sim da má qualidade e absurdos apresentados na tela. Acho que tal reação para o público brasileiro será maior quando o país é representado na trama.

 

É até curioso as referências que me vieram à cabeça quando sai da sala de projeção. Foram exatamente 3 séries de TV. A primeira como disse foi a da teoria de “Lost”. A segunda é “Friends”, em uma cena onde Joey, que em “Friends” é um ator buscando ascensão na carreira, está explicando para alguém como ele faz para se lembrar de uma fala durante a gravação de uma cena da novela que ele participa dentro da série. Segundo o personagem ele apenas olha ao longe e se expressa como se alguém tivesse soltado gases no ambiente. A interpretação em “Amanhecer – Parte 2″é justamente isso. Os atores param, fogem com o olhar para o nada e aguardam o narrador parar de explicar o que está acontecendo.A terceira lembrança de série foi de um vídeo que vi há pouco tempo na web onde mostra como ficaria a série “Anos Incríveis” sem o narrador. No vídeo os atores parados olhando um cara a cara do outro aguardam a deixa para começar suas falas. Boa parte do primeiro e segundo ato de “Amanhecer – Parte 2″ é isso, os atores aguardando.

 

Os efeitos especiais é um show à parte. Juro que já vi novelas Mexicanas de emissoras com orçamentos restritos dando de 10 a zero nos efeitos desse filme. O pior de todos é a reconstrução digital que fizeram no rosto do bebê de Bella e Edward para ficar semelhante à da atriz mirim Mackenzie Foy. Lembra-se do filme “O Filho do Máscara“? Está bem semelhante. Quando a personagem da criança é assumida pela atriz de fato, existe uma expressão facial que causa uma certa estranheza. Não consegui entender se aquilo no rosto da garota é um CGI ou uma maquiagem mal feita. Tamanha falta de humanidade no rosto não nega o porque foi a escolhida para ser  filha de Kristen Stewart no filme, que continua com seus dentinhos para fora em buscando expressar algum sentimento.

 

Outro ponto que incomoda muito no filme são as trilhas incidentais das cenas de diálogos. Elas simplesmente são cortadas à seco muitas vezes, gerando aquele desconforto na continuidade. Nas cenas de ação elas estão ok, mas em grande parte do filme incomoda muito.

 

Tirando o fato de que na história os vampiros também são uma mescla de X-Men, pois cada um ali possui um poder, ou habilidade sobre humana, as cenas de ação são o que salva o filme (isso quando se está com a mente aberta e deixa passar os erros de  CGI). Ela é colocada em um momento onde realmente a platéia precisa de um motivo a mais para continuar sentada e não desistir da falta de história da trama do filme.

 

Juro que fui com o coração aberto para tentar encontrar um final épico como a divulgação do filme prometia. Juro que não tive um pré-conceito formado e tentei até ignorar o que vi anteriormente nessa série. Esperava de fato um tapa na cara com um final incrível que salvaria e justificaria todos os erros anteriores. Mas infelizmente Amanhecer- Parte 2 só é mais um filme de uma saga que nunca deveria ter saído do papel. Talvez se o final fosse um cachorro sonhando com tudo aquilo, a trolagem não seria tão grande como todos os 5 filmes foram.

 

 

Rodrigo Santuci

Agora leia também a  crítica feita por quem É FÃ dos filmes clicando aqui.

Author: RS

Diretor de Arte em publicidade, crítico de cinema e um dos fundadores do site Plugou. Entusiasta em adaptações de quadrinhos para cinema, Beatles e de séries de TV.